15 de mar de 2016

O milagre do ensino



Quando eu decidi ser professora eu soube, naquele momento, que precisaria estudar muito mais do que já tivera feito até então na vida. Encarei esse desafio como uma oportunidade de aliar duas coisas que amo, dialogar com pessoas e ler. No entanto não é somente ler, mas refletir também.
Negam aqueles que acham que quando se é professor já se sabe tudo, ao contrário, nós temos apenas a vaga ideia de onde procurar.
O professor é também aquele que constrói pontes entre o que se lê e o que se vive na vida real. Não que os livros não se originem de uma experiência real, mas em muitos casos, o leitor tem certa dificuldade de relacionar a teoria com a prática.
Pois é quando se transmite aquilo que foi assimilado e experienciado após leitura e reflexão, que mais aprendemos.
Ensinar é uma grande oportunidade de comunicar suas reflexões, de compartilhar aquilo que se acha que entendeu. No entanto, quando transmitimos ao outro, percebe-se que ele compreendeu de uma forma completamente diferente do que você havia entendido.
Ser professor é buscar mil e uma formas de comunicar algo de maneira que o aluno possa entender, compreender e assimilar.
Ser professor é a incrível capacidade de plantar ideias no outro de maneira que quando elas germinarem, produzirão grandes frutos que podem transformar a humanidade.
Ser professor é ter a permissão de descortinar o saber científico ou decifrar o código linguístico nas primeiras letras da infância.
Muitas vezes entramos em sala, passando por cima de inúmeras dificuldades e conflitos pessoais simplesmente pelo amor que temos ao próximo e pelo incrível desejo de vê-lo evoluir.
Então, se cabe ao professor à inata capacidade de influenciar, é fundamental que ele deposite o seu coração e o seu espírito a cada vez que adentrar em sala de aula, com um sorriso ou não, e então após dizer Bom Dia ou Boa noite, pegar a caneta ou o giz, pois é naquele instante que o milagre se faz.

1 de jan de 2016

Correr, um eterno recomeço

Todo começo de ano é a mesma coisa, muitas promessas são feitas e quando o ano termina, fazemos um balanço do que passou, vemos que nem todas foram cumpridas. Algumas delas, por nossa própria culpa, negligência, preguiça, procrastinação e outras promessas são adiadas por fatores diversos que não temos o controle.

No início de 2015 eu havia prometido a mim mesma retomar os treinos de corrida com dedicação para que em 2016 pudesse realizar minha primeira maratona, os sonhados 42k nos meus 42 anos. Comecei o ano com empenho, tanto que após a dengue, em fevereiro, retomei os treinos logo sem dar muita atenção a recuperação necessária, o que me deixou ainda mais debilitada e suscetível a herpes zoster. Então, entre os meses de abril e maio passei 33 dias no hospital por conta de bactéria que quase me levou à óbito, fui submetida à 3 cirurgias e levei meses para me recuperar, tendo alta médica completa somente em dezembro de 2015. As cirurgias deixaram sequelas físicas para sempre, e limitações momentâneas de movimentos que me impediram de retomar a musculação antes.






Retomar os treinos após o parto foi infinitamente mais fácil do que agora, ainda mais porque uma gestação, mesmo sendo 3 cesáreas, o corpo encara como um processo natural e o próprio metabolismo auxilia nesta recuperação. Contudo, após chegar tão próximo da morte, e foi próximo mesmo, meu corpo enfrentou como uma agressão imensa, tanto que foram meses de recuperação, repouso e muita paciência.


Para quem vê de fora, as sequelas físicas estão diminuindo e ficando boas, mas ninguém pode ver as marcas internas. Emocionalmente tudo que aconteceu me abalou muito, é difícil admitir isso pois passei muito tempo no hospital e depois que sai dele me questionando porque aconteceu tudo isso comigo. A gente acha que fazer exercícios físicos nos livra de doenças, como câncer, ou problemas como obesidade, diabetes, hipertensão, mas não nos damos conta que o excesso de exercícios pode ser prejudicial também.

Às vezes penso que se eu não tivesse retomado os treinos logo após a dengue não teria ficado tão debilitada e sucessível a herpes sortes e depois a bactéria comedora de carne. No entanto se fosse sedentária talvez não tivesse conseguido me recuperar tão bem como foi, tanto que o enxerto de pele aderiu 100% e hoje consegui recuperar os movimentos do braço. Se isso..., se aquilo... tantas possibilidades ainda passam pela minha mente frequentemente.

Então que em meio a tantos questionamentos tenho que, afinal, agradecer por nunca ter deixado de treinar, mas ainda preciso recuperar a motivação para voltar a treinar com o mesmo afinco sem carregar os monstros que levo comigo. Sim, monstros, pois mesmo sabendo que os treinos me salvaram, eles também não me livraram de ter passado por tanta dor. É impossível não lembrar de tudo e não chorar por dor, por alívio e principalmente por gratidão. Claro que agradeço a Deus por ter me livrado da morte ou por não ter sido necessário amputar o braço. Sei que está na hora de superar essa história, deixá-la no passado e retomar o controle sobre minha vida em busca da pessoa que sou. Mas juro que estou tentando superar e não lembrar com tanta frequência, porém, quando olho para meu braço e vejo a marca que foi deixada, fica impossível esquecer.

Achei que escondendo dos outros, e de mim mesma, usando somente camisa de manga comprida e saias longas eu esqueceria e seria mais fácil encarar. Tanto que dei todas minhas camisetas regatas, mas isso não adiantou. Foi então que conheci uma aluna, a jovem brilhante e corajosa Jessica Saeko das aulas de pedagogia, que me encorajou a assumir as marcas. Jessica contou como ela enfrentou as marcas que possui, o olhar das pessoas e me mostrou que aceitar é o primeiro passo para recuperar o amor próprio. Então me conscientizei que tudo que passei não é para ser esquecido, mas para ser lembrado e que sirva de exemplo para outras pessoas.

Porém, mesmo passado por tudo isso, ainda não me sentia confiante para voltar a correr, foi então que conversando com uma amiga ela me fez ver que se eu já havia superado tantas adversidades e 3 partos, então posso ter mais essa conquista e recomeçar. Só quem encara a morte frente à frente e consegue voltar sabe dizer que as vezes se consegue tirar forças sabe-se lá de onde. Então se Deus me mandou de volta, pois cheguei na porta do céu e voltei, é porque tenho uma missão a cumprir. Já que é assim, vamos para mais um desafio, é hora de voltar às pistas e ser feliz.


Borá lá?!