24 de mar de 2011

6 meses

Alice completa hoje 181 dias de vida, ou melhor, 6 meses.
Neste tempo me apaixonei ainda mais pelas minhas filhas Bia, Gabi e Alice. Curtir seu desenvolvimento, suas conquistas, gracinhas e resmungos tem sido incrível. Desde o primeiro segundo de vida de cada uma delas, amei-as incondicionalmente. Cada minuto desde que nasceram quero estar ao seu lado, e cada sorriso ou choro desejo curtir ou amparar. Quando nos tornamos mães, descobrirmos que existem sentimentos que ainda não havíamos sentido e nos perguntamos como foi possível viver até aquele momento sem sentir isso?! “Quando escolhemos ter filhos, tomamos a decisão consciente de permitir que o nosso coração possa caminhar fora do nosso corpo”, como li em um site.

Bia com 6 meses

As vezes custamos a notar o quanto nosso bebê já cresceu. É como se perdêssemos a referência. A correria do dia-a-dia é tão grande que deixamos de notar pequenos detalhes. Bem, acho que já comentei isso aqui. Uma referência que tenho são as roupas e calçados. Como perdem roupas essas crianças! Bebês então, nem me fale! É muito rápido, um só inverno ou verão porque no próximo já tem que comprar tudo novamente. É quando se tem a impressão de que estar fazendo “compras” o ano todo. Calçado então,... piscou, e o dedão tá saindo pra fora do chinelo.

Gabi com 6 meses

Mas o que eu quero dizer com isso?
As crianças crescem (ainda bem), os pais envelhecem e dizem que quando nos tornamos avós é que curtimos de fato as fases da criança. Bem, isso não sei pois ainda não sou avó, nem quero ser tão cedo... hehehehe. O que sei é que estou curtindo cada momento da Alice, seu primeiro sorriso, o primeiro resmungo, a primeira vez que reconheceu a mamãe e o papai, o primeiro dentinho (20/03), e tantas outras primeiras vezes...

Alice e a vovó

Não sei onde foi parar na minha memória o registro das primeiras vezes das meninas, mas ainda bem que temos fotos pra nos ajudar a rememorar.


E quanta coisa conseguimos fazer em meio ano? Muita coisa, mais do que imaginamos.

No Pólo Norte ou no Pólo Sul um dia pode durar 6 meses
Um coelho leva 6 meses pra se tornar adulto
Um pedaço de pano ou madeira leva em média 6 meses pra se decompor
Escrever uma tese, poesia, canção
Aprender um novo idioma
Se preparar pra uma maratona (ou meia)
Pagar uma dívida
Fazer uma dívida
Arrumar um namorado
Terminar um namoro
Fazer uma viagem
Fazer novas amizades
Se apaixonar
Casar
Ter um bebê (prematuro, é claro)

O que mais você sugere?



Bênção Irlandesa
...que o caminho seja brando
a teus pés,
o vento sopre leve
em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre a tua face,
as chuvas caiam serenas
em teus campos.
E até que eu
de novo te veja,
que Deus te guarde
na palma de sua mão.

16 de mar de 2011

As flores do meu jardim – Retornando ao trabalho e as pistas

Nos últimos 5 meses, desde que a Alice nasceu, tive a oportunidade de sentar no meu jardim diversas vezes e observar as roseiras e hortências podadas crescerem e desabrocharem. Nesse tempo ficava pensando e imaginando em como seria o retorno ao trabalho, com data marcada, mas não tinha a menor idéia de quando retornaria as pistas, quando voltaria a sentir a endorfina percorrer o meu corpo, novamente.

Alegrei-me e entristeci-me diversas vezes por não conseguir prever ou planejar este retorno a corrida. Esperava pelo momento em que meu corpo daria os sinais que estaria pronto para o esforço e mesmo tendo a liberação médica, sentia um certo desconforto no local das 3 cesáreas. Pacientemente esperei, preocupada com a amamentação e em dar a atenção necessária e exclusiva as minhas filhas nesse período.

Tudo a seu tempo e no tempo certo meu retorno aconteceu.
Ganhei a inscrição da prova do meu esposo, Alexandre Abreu, no dia 8 de março, dias das mulheres. O que para mim, estudante de gênero e simpatizante do movimento feminista, foi um significativo gesto do Homem que tenho ao meu lado. Foi também um grito de liberdade da “mulher” que estava aprisionada pela “mãe” representada nestes últimos meses. São tantos os papéis que nós mulheres temos que desempenhar ao longo de toda uma vida... e muitas vezes eles se sobrepõe (filha, namorada, noiva, esposa, amante, mãe, avó, tia,...).


Acho que meu marido reuniu muito bem o espírito do evento no texto que escreveu brilhantemente em seu blog Enquanto Isso e faço minhas as suas palavras de relato da prova. Foi a primeira vez que participo de uma prova organizada pela Corpore, e gostei muito da distribuição do espaço, medalha, já quanto a camiseta, um tanto exagerada nas marcas, faltou destaque a identidade da prova em si, dando espaço demais ao patrocinador máster da prova, enfim... Quanto ao local, a USP, tenho um carinho especial pelo local, foi onde fiz minha primeira prova de 5k, efetivamente, na Fila Night Run. Não só por isso, mas é onde eu costumava freqüentar seus prédios e bibliotecas para pesquisa de faculdade, ou mesmo para passear e sonhar com uma vaga na FUVEST.


O melhor de correr, além de todos os benefícios para o corpo e mente que tod@s sabemos são os amigos que fazemos, e temos feito muitos. Alexandre e eu conhecemos muita gente legal, bem humorada, simpática e companheira desde que entramos para o hall dos #twittersrun e com muito orgulho fiz meus 5k vestindo essa camiseta. Homens e mulheres guerreiros, que vencem suas batalhas diárias em busca de endorfina e qualidade de vida, sempre muito festeiros e isso nós podemos ver nas fotos abaixo. Grande foi a alegria em conhecer a guerreira Jacke que, assim como eu, é mãe de 3 filhos (Clara, Pedro e Lucas) e apaixonada por corridas. Desta vez com direito a bolo na comemoração da #runningdiva @YaraAchoa, além da presença da minha filha Bia, da linda Clarinha (filha da incrível @Jackegense) e da presença do mascote e fuleiro Jeremias (estimado cão do @wandernardino e @Adri_Gazola).

querida Jacke


Clara e Bia


O fuleiro Jeremias e seu dono Wander

Meus primeiros 5k depois do nascimento da Alice foi com um debut, uma passagem para a maioridade das corridas, uma nova fase nessa fase nova da minha vida. E em meio a tantas novidades tive também o meu retorno ao trabalho no dia seguinte a prova.

Depois de 5 meses afastada, voltar a jornada de trabalho não foi nada fácil. Foi mais ou mesmo como começar num emprego novo, mas na mesma empresa, com os mesmos problemas, dificuldades e limitações de cada um. Confesso que senti um pouco de frustração, pois com tantas novidades que aconteceram desde a chegada da Alice, voltar ao mesmo ponto de antes é como se não tivesse evoluído. Por outro lado, essa “estagnação profissional aparente” nos da à sensação de continuidade, de que é possível retornar ao mercado de trabalho. Muitas empresas não vêem com bons olhos mulheres-profissionais, mães de mais de um filho. Elas não percebem que esta pode ser uma profissional muito mais empenhada e compromissada com suas funções pela responsabilidade que possui em cuidar e prover para suas crias.

O recomeçar na mesma empresa também gera expectativas em ambas as partes. Do lado da empresa, ela espera que você venha render tanto igual ou mais do que antes de sair de licença. Em sua mentalidade comercial, ela pode imaginar que esses 4 meses de licença mais 1 mês de férias foram de puro descanso. Ledo engano! É possível e necessário se “desligar” das atribuições do trabalho para cuidar de novas atribuições: decifrar e entender as necessidades do pequeno ser gerado a fim de prover suas necessidades básicas. E quem disse que se consegue “descansar” com um bebezinho em casa?

Pois bem, esse desligamento impede que retomemos o trabalho no ritmo anterior. Depois de tanto tempo atenta as horas de mamada, consumo de fraldas, cuidados com banho, papinhas, vacinas, etc, etc, etc retomar as atribuições profissionais nem sempre é automático. Confesso que me senti meio “lerda” no primeiro dia, esquecendo de nomes de pessoas, ramais..., mas no segundo dia, percebi que gradativamente minha memória profissional esta voltando.

Em casa, Alice e suas irmãs se comportaram como mocinhas! Fiquei com um medinho de que a pequena fosse chorar ao longo do dia, tanto que evitei ligar em casa pra “falar” com ela ao telefone, para não provocar a saudades. Mas saudades de quem, minhas? Acho que fui eu quem mais sofreu com essa separação necessária. Sentia um nó na garganta toda vez que alguém me perguntava dela ao me cumprimentar e foram diversas as vezes que não consegui segurar as lágrimas. Não foram só as saudades, a falta de sentir seu cheirinho e calor do corpinho frágil e o sorriso doce, foi também o medo dela chorar de saudades que mais me deixaram insegura. Saber que ela ficou bem o dia com os avós e irmãs foi um alívio!

E assim se vão os dias, me dividindo entre os diversos papeis que tenho que desempenhar ao longo do dia. Continuo a passar todos os dias pelos bancos do meu jardim, mas agora sem poder parar pra apreciar as rosas por pelo menos 5 min. Elas continuam a crescer, embelezar e nos embalar com seu perfume. Disso eu tomei uma lição, não deixar de olhar para minhas 3 princesas todos os dias, notar e registrar seu crescimento e vibrar com suas conquistas. Não deixar de ver sem ver.

9 de mar de 2011

Feliz Aniversário Gabi

E foi mais ou menos assim...
Engravidei da Gabriela quando a Bia não tinha um ano. Na verdade, na festa de 1 aninho da Bia eu nem sonhava que estava grávida. Comecei a ter dores de estomago, achei que fosse por conta do stress do trabalho, e procurei um gastro que me receitou remédios sem exames prévios. Mas as dores e o enjoamento não melhoraram. Foi então que desconfiei de uma possível gravidez e fiz o tal teste de farmácia: resultado positivo. Meu Deus, como vamos fazer com 2 bebês em casa!


Tive uma gestação bem complicadinha, enjoando bastante com pressão baixa e tendo que correr diversas vezes para o hospital com desidratação. Isso acabou me afastando algumas vezes do trabalho, por sua vez a empresa, não podendo me demitir devido a gravidez, acabou me mantendo em casa recebendo salário e benefícios, como se estivesse trabalhando. De fato essa não era uma situação desejada. Eu tinha uma carreira, projetos e estava em franco desenvolvimento de tudo, aliado aos projetos da empresa. Isso minou a minha alegria com a nova gestação, meu estado geral complicou com os enjôos e depressão. Não foi nada fácil. Mesmo não conseguindo me alimentar corretamente fiquei muito inchada e engordei uns 20kg, além dos kilos extra que sobravam da gestação anterior. No último trimestre, o peso da barriga e as dores nas costas praticamente me impediam de andar e tinha que fazer compras no mercado usando os carrinhos elétricos. Apesar de fazer repouso nas últimas semanas devido contrações e sangramentos conforme orientação médica, Gabriela nasceu dia 9 de março de 2003 com 49,5cm e 3,450kg.

Enorme foi a emoção do seu nascimento. Bia estava radiante por ganhar uma irmãzinha pra brincar, mas acabou ganhando uma boneca, assim como a mamãe. Deu certo, ela nunca teve ciúmes da irmã e seu comportamento não mudou. Gabi nasceu com 8 meses de gestação e apresentou um desconforto respiratório associado a um ronco forte ao respirar que a fez ir para a UTI da maternidade. Eu que tinha acabado de fazer a 2a cesárea ia de cadeira de rodas amamentá-la nos primeiros dias. Frustrante a experiência de estar na maternidade, ganhar um bebê, ter roupinhas prontas para vestí-lo, visitas chegando e não te-lo nos braços. Mas no último dia ela chegou.

Em casa fomos aos poucos conhecendo mais sua personalidade naquele primeiro mês, Gabi era um lindo bebê, tranquila e comilona. Como mamava aquela baixinha viu!
Pouco antes de completar 1 mês de vida, Bia pegou um resfriadinho e grudada com a irmã, acabou transmitindo a ela. Aos poucos Gabi foi perdendo o "apetite" e passou metade de um dia sem mamar. Fiquei preocupada, pois pela experiência que tive sabia que não mamar podia indicar algo errado. Enfim, passei a madrugada tentando dar de mamar pra Gabi e ela desfalecendo nos meus braços. Aquela foi a pior noite da minha vida! Tinha pedido ao Abreu para me levar no hospital naquela noite, mas desistimos pois pensamos que ela poderia estar bastante sonolenta pra não querer mamar. Mas depois da terrível noite, naquela manhã levantei decidida a ir no consultório da pediatra e espera lá mesmo a hora pra ser atendida, esse estado não era normal para uma bebê com 1 mês de vida.

Gabriela teve 3 paradas respiratórias no consultório da pediatra fazendo-a reanimá-la la mesmo. Corremos para o hospital mais perto e por não ter infra-estrutura adequada fomos transferidos de ambulância para o Hospital Infantil Sabará. Alguém tem idéia do que é pegar a Radial Leste, em pleno horário de pico, numa ambulância? Impossível andar. Nervosismo total! Ainda por cima a médica era boliviana e me pedia para descrever o ocorrido num portunhol medonho. Eu nervosa e totalmente perdida!

Já no hospital Gabriela foi direto para a UTI e precisou ser entubada e ficar na incubadora. Os médicos fizeram dezenas de perguntas sobre a rotina em casa, seu estado de saúde e medicamentos que estava ministrando. Possivelmente desconfiaram de intoxicação, situação comum nas UTIs neonatais, segundo enfermeiras na época. O mais intrigante é que na tarde anterior eu havia levado a Gabi para consulta com uma otorrino devido seu ronco, e a médica, mesmo examinando-a, não detectou que ela já apresentava dificuldades em respirar e fraqueza.

Valorizo muito a opinião e diagnóstico dos médicos, mas aprendi que eles não são senhores da verdade e muitas vezes não entendem de gente, é fundamental dar voz ao sexto sentido materno.

Passado uma semana na UTI tivemos o diagnóstico de uma bronquiolite, um tipo de resfriado muito comum em bebês. Porém, passado o tempo previsível de recuperação ela não melhorava e diversos exames começaram a ser feitos. Eu passava todas as tardes e parte da noite ao lado de seu bercinho, sentada numa poltrona quase desconfortável, conversando com ela e orando, pedindo a Deus por um milagre. Voltava para casa para dormir, tirar leite e claro, ficar um pouco com a Beatriz. Coração de mãe dividido ainda tinha que ser forte para superar isso e produzir o alimento que tanto era importante para sobrevivência e resistência da pequena Gabriela. Por sorte meu leite não secou, provavelmente por tanto ingerir o “chá da mamãe” da Weleda e por continuar a tirar o leite todos os dias.

Com 1 mês e 10 dias de vida Gabi foi para a sala de cirurgia, seu caso era mais delicado do que imaginávamos. O cirurgião Dr. Uenis Tannuri nos disse que era raro o tipo de anomalia, pois tratava-se de uma “veia” anômala que estrangulava a traquéia e o esôfago, razão pela qual a Gabi deixou de respirar ao contrair a bronquiolite. Bendita seja, pois se não fosse por ela, talvez Gabi pudesse vir a falecer no berço e diagnosticada de morte súbita.

A cirurgia durou por intermináveis 3 horas. Sua recuperação foi lenta, recebendo sangue, antibióticos, entubada, com dreno e cheia de cabos que mal me permitiam chegar perto dela. Mãos enfaixadas e amarradas, pés com oxímetro, tubos e cabos em todo o corpo, não sobrava espaço para tocar seu corpinho pequeno, frágil e quente. Fiquei 20 dias sem poder segurar meu bebê no colo, estava com ela todos os dias, mas não podia senti-la de fato. No 21º dia, após alguns cabos serem desligados, consegui que uma enfermeira a colocasse no meu colo e ali fiquei uma tarde inteira, imóvel, sem poder levantar para nada. Nem queria, o tempo parou naquela tarde e assim se repetiram inúmeras vezes. Aos poucos os cabos, tubos de alimentação e oxigênio foram desligados e Gabi começou a mamar, primeiro na mamadeira e depois no peito. Não podia ficar cansada e seus batimentos e saturação eram monitorados 24horas.


Após 40 dias de internação tivemos sua liberação para trazê-la para casa, mas precisaria continuar com a monitoração e acompanhamento médicos constantes – Home Care. Quase uma extensão da UTI foi montada em nossa casa, enfermeira 24horas, visitam médicas semanais, ambiente limpo, quarto sem enfeites e sem visitas. Nós de casa e avós, para segurá-la nos braços, tínhamos que lavar as mãos ou usar máscara, quando algum resfriadinho aparecesse. Aos poucos, com seu crescimento, fomos liberados de tantos cuidados e conseguimos autonomia para cuidar dela sozinhos. Em seu primeiro ano de vida, Gabi me fez aprender com as enfermeiras na UTI e em casa, a mexer nos equipamentos e balão de oxigênio, fazer os registros necessários para acompanhamento do pediatra e até como fazer fisioterapia respiratória (ela precisava aprender a tossir e expelir a secreção). Tínhamos como apoio pediatra e pneumologista (acompanhamento), fonoaudióloga (aprender a engolir e mastigar comida), psicóloga (sanar seu pavor de pessoas vestidas de branco, nem o açougueiro e seu avental Gabi gostava) e fisioterapeuta(aprender a tossir), Ufa! Cada coisa passamos…

Após 9 meses de Home Care e ainda algumas intercorrências ocasionada por broncopneumonia, foi diagnosticada com refluxo por conta da hérnia de hiato o que levou Gabi a uma segunda cirurgia. E justamente esta ocorreu no dia do seu primeiro aniversário. Entre internação, cirurgia e recuperação foram mais 20 dias.




Após internações, cirurgias e tantos cuidados médicos Gabi foi crescendo normalmente, sem seqüelas, apesar das cicatrizes, tendo o acompanhamento somente da pneumologista. De um jeito particular, as vezes lento e as vezes não, começou a andar, falar, escrever, desenhar muito e fazer artes como nunca. Hoje, disso tudo que passamos, Gabi só tem as cicatrizes, que ela nem sabe como conseguiu. Um dia me perguntou: Mãe, o que são esses risquinhos que tenho na barriga? E esse corte grande? Vou ficar com ele quando crescer? Então expliquei e mostrei fotos, mas ela, graças a Deus, nada lembra! Melhor assim.

Gabriela nos fez pais mais fortes, mais sábios, mais pacientes. Aprendemos de maneira dolorida a respeitar o tempo de Deus e seus desígnios para as nossas vidas. Nossa fé nos deu consolo, força e coragem para não desistir em momentos que não tínhamos chão. Lembro de uma vez que um médico da UTI, num tom sarcástico, me disse: “ Mãe, você ganhou na loteria. O que sua filha tem é raríssimo, em 33 anos de medicina só vi 30 casos assim, e como o dela menos ainda”. Eu respondi que dessa loteria eu jamais comprei bilhete. Mas ele insistia em dizer que ficaríamos na UTI por tempo indeterminado, como víamos muitas crianças que lá estavam por 15 anos, por exemplo.


Agora, completando 8 anos de existência, olhamos para trás não com saudades, mas com júbilo por ver o nosso crescimento como seres humanos e por tantas alegrias que Gabriela trouxe a nossa família. De fato, tenho filhos são presentes do Senhor e nós passamos exatamente por aquilo que Deus assim determinou.

Por muito tempo procurei não pensar em tudo que passei, as noites mal dormidas e os choros de dor e sofrimento das crianças (incluindo o meu bebê) na UTI. As angústias, sofrimentos, limitações que tínhamos com pais inexperientes. Esse texto serve como um desabafo de sentimentos aprisionados e também como um registro histórico, para a própria protagonista.

De hoje em diante, olhemos somente para o seu futuro, que ele seja glorioso, com muita saúde e paz. Sim, porque vitoriosa você já é Gabi, por tudo o que passou, sofreu, sentiu, calada, sem saber falar, quando a única forma de nos comunicar era pelo seu olhar no leito do hospital. Muitas ainda serão as vezes que vamos rir juntas!

"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre tua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de Sua mão."
(antiga bênção irlandesa)

Feliz Aniversário!

4 de mar de 2011

Amamentar é dar amor

Ninguém diz ou escreve, pelo menos não me lembro de ter lido nada significante nesses 9 anos de maternidade, como amamentar pode ser um ato tão doloroso e prazeroso ao mesmo tempo.
Não me lembro de ter sentido tanto prazer e felicidade em amamentar como tenho sentido desta vez. Acho que um dos privilégios de ser mãe pela terceira vez é poder curtir "fases" e vivenciar momentos que as vezes passam desapercebidos ou mesmo acabam esquecidos na rotina de nossas vidas.

Amamentei minha primogênita, a Bia, por quatro meses exclusivamente, até retornar ao trabalho, o que fez com que aos poucos, o peito fosse substituído pela mamadeira e aí foram mais 2 meses até o desmame.
A Gabi, tadinha, mamou de fato somente 1 mês quando ocorreram seus probleminhas de saúde, cirurgia, mais 2 meses de UTI, seguidos de 9 meses de home care (isso é história para um outro post). Enfim, com a Alice, agora minha caçula, estou exercitando o que aprendí na prática com as duas primeiras juntamente com o apoio do GAAM (Grupo de Apoio ao Aleitamento Materno) do Hospital São Luiz do Anália Franco.

Na primeira vez com a Bia, lembro do meu peito cheio, endurecido e quente na maternidade, a chamada “descida do leite”. Antes de fazer ordenha, tínhamos que colocar compressas com toalhas molhadas em água gelada, para extrair o leite extra que a Bia não dava conta de mamar. O peito rachou, sangrou um pouco, mas no final deu certo. Na segunda vez, com a Gabi, o peito rachou também, ela mamava bastante, comilona, logo tive que aprender a tirar o leite com bombinha manual para que ela pudesse recebê-lo pela sonda na UTI (Há 8 anos atrás não era conhecido o serviço de aluguel de bombinhas para ordenha e nunca obtive informações nem apoio nos hospitais que passamos). Para me ajudar a garantir o suprimento de leite, na época, tomava o “chá da mamãe” da Weleda. Quando voltou pra casa, tive que conciliar o peito e a mamadeira pois ela não podia se “cansar” mamando no peito. Isso foi minando aos pouco nosso sucesso.


Já a Alice me deu um baile danado no começo. Quando achei que tiraria de letra as mamadas, ela testou minha paciência. Cheguei a passar uma manhã inteira com ela no cólo só amamentando. A baixinha queria mesmo era cólo e peito, nada de dormir no berço ou onde fosse, e eu ainda com dores nos pontos da cesárea. Mas isso foram só nas primeiras semanas.

Depois disso cheguei a uma conclusão: Amamentar não é intuitivo!

Após o primeiro mês, tudo correu bem e agora, a Alice com 5 meses e meio, tenho sentido o “prazer” de amamentar minha princesa, quando desfrutamos de um momento íntimo e de estreita ligação entre mãe e filha.
É uma pena que isso esteja com os dias contados, pois devo voltar a trabalhar em poucos dias. Infelizmente não disponho de licença maternidade de 6 meses, o que pra mim é desconcertante, visto que a Organização Mundial de Saúde (e o próprio governo federal - Ministério da Saúde) orienta que o aleitamento materno seja exclusivo neste período. Aí me pergunto: E as funcionárias de empresas que não aderem a licença maternidade de 6 meses, como fazem?

Quero continuar a amamentar quando voltar a rotina do trabalho e pretendo ordenhar o leite na empresa ao menos uma vez. Para enfrentar essa nova etapa, busquei novamente a preciosa orientação do GAAM-São Luiz e torço para que a mamadeira não seja uma concorrente desleal. Hoje uso bico de silicone ortodôntico para suco , e eventuais mamadas , e até hoje Alice conciliou o peito e a mamadeira sem largar o peito, o que considero uma vitória. Uhuuuu! Estou decidida a prolongar essa conquista e enfrentar as dificuldades que surgirão. Ordenhar em locais e horários diferentes, carregar maleta com leite congelado, correr o risco do peito vazar no meio de uma reunião e principalmente vencer a pressão da sociedade de que “isso não vai dar certo” ou “é muito trabalhoso”. Meu corpo mudou em 9 meses de gestação e agora está longe de ser como antes, mesmo assim, resolvi enfrentar esse período sabático, longe das corridas de rua que tanto me dão prazer.

Ainda mais difícil é conseguir conciliar maternidade, casamento, família e ainda ter tempo para si mesma. Desempenhar o papel de filha, esposa e mãe, simultaneamente e ainda voltar ao trabalho.

Mesmo assim, estou certa de que vale totalmente a pena insistir na amamentação, superar as dificuldades iniciais, enfrentar os bicos rachados e sangrando, as restrições alimentares por conta da cólica e principalmente estar “disponível” e disposta a doar-se para alimentar seu bebê. Sim, pois amamentar é um ato de doação, não somente de alimento físico, mas principalmente emocional, pois enquanto se amamenta (dando o alimento físico) é importante também acariciar, cheirar, conversar ou entoar uma canção para o bebê e assim despertá-lo para outras sensações. Amamentar é doar amor.

Quero curtir ao máximo esses dias, amamentar dia e noite, beijar, cheirar e sentir sua pele macia em contato com a minha. Amar intensamente e registrar esses momentos na memória do meu coração.

Amos vocês Bia, Gabi e Alice


Algumas Dicas:

Pomada – aprendi na prática que as pomadas a base de lanolina ajudam muito no início da amamentação, pois de tanto que o bebê suga, o bico do seio fica um pouco ressecado e daí racha, a cada mamada vale a pena reaplicá-la.

Protetor/absorvente de Seio – experimentei usar conchas para o seio mas não gostei muito. Ao deitar, em pleno cochilo da tarde, entre uma mamada e outra, o leite acumulado acabava vazando, isso quando não “magoava” um pouco o bico do seio. Já com o absorvente obtive boas experiências quando ao amamentar de um seio, o vazamento que geralmente acontecia com o outro peito acabava sendo absorvido, isso me salvou muitas vezes de ter a blusa manchada em certos momentos.

Ordenha Manual x Aluguel – Importante aprender a fazer a ordenha manual, massageando o peito e extraindo o leite produzido em excesso nos primeiros dias pós parto. Na minha primeira filha fiz por diversas vezes quando na drástica “descida” do leite, isso me salvou de uma possível mastite. Na segunda filha usei as bombinhas manuais, pois as elétricas que hoje encontramos para alugar não estavam disponíveis no Brasil, na verdade esse serviço de aluguel de bombinhas, creio que nem devia existir. Se não fossem por elas não teria conseguido manter a produção do leite no período que minha filha estava na UTI para que retornasse ao peito quando em alta. Com esta minha terceira filha tive a oportunidade de alugar a bombinha elétrica logo nas primeiras semanas devido o peito rachado e sangrando. Passei um dia extraindo o leite do peito que estava mais machucado e oferecendo na mamadeira mesmo (bico ortodôntico), deu certo. Essa “folga” para o peito ajudou-o na cicatrização e manteve a produção de leite.

Pega correta da mama – Faz total diferença uma pega correta do bebê na mama. Evita que o bebê engula ar, ocasionando cólicas/gazes, e também que o bico fique machucado. Achei que a imagem abaixo, que encontrei na internet, ilustra muito bem essa “pega”.