9 de mar de 2011

Feliz Aniversário Gabi

E foi mais ou menos assim...
Engravidei da Gabriela quando a Bia não tinha um ano. Na verdade, na festa de 1 aninho da Bia eu nem sonhava que estava grávida. Comecei a ter dores de estomago, achei que fosse por conta do stress do trabalho, e procurei um gastro que me receitou remédios sem exames prévios. Mas as dores e o enjoamento não melhoraram. Foi então que desconfiei de uma possível gravidez e fiz o tal teste de farmácia: resultado positivo. Meu Deus, como vamos fazer com 2 bebês em casa!


Tive uma gestação bem complicadinha, enjoando bastante com pressão baixa e tendo que correr diversas vezes para o hospital com desidratação. Isso acabou me afastando algumas vezes do trabalho, por sua vez a empresa, não podendo me demitir devido a gravidez, acabou me mantendo em casa recebendo salário e benefícios, como se estivesse trabalhando. De fato essa não era uma situação desejada. Eu tinha uma carreira, projetos e estava em franco desenvolvimento de tudo, aliado aos projetos da empresa. Isso minou a minha alegria com a nova gestação, meu estado geral complicou com os enjôos e depressão. Não foi nada fácil. Mesmo não conseguindo me alimentar corretamente fiquei muito inchada e engordei uns 20kg, além dos kilos extra que sobravam da gestação anterior. No último trimestre, o peso da barriga e as dores nas costas praticamente me impediam de andar e tinha que fazer compras no mercado usando os carrinhos elétricos. Apesar de fazer repouso nas últimas semanas devido contrações e sangramentos conforme orientação médica, Gabriela nasceu dia 9 de março de 2003 com 49,5cm e 3,450kg.

Enorme foi a emoção do seu nascimento. Bia estava radiante por ganhar uma irmãzinha pra brincar, mas acabou ganhando uma boneca, assim como a mamãe. Deu certo, ela nunca teve ciúmes da irmã e seu comportamento não mudou. Gabi nasceu com 8 meses de gestação e apresentou um desconforto respiratório associado a um ronco forte ao respirar que a fez ir para a UTI da maternidade. Eu que tinha acabado de fazer a 2a cesárea ia de cadeira de rodas amamentá-la nos primeiros dias. Frustrante a experiência de estar na maternidade, ganhar um bebê, ter roupinhas prontas para vestí-lo, visitas chegando e não te-lo nos braços. Mas no último dia ela chegou.

Em casa fomos aos poucos conhecendo mais sua personalidade naquele primeiro mês, Gabi era um lindo bebê, tranquila e comilona. Como mamava aquela baixinha viu!
Pouco antes de completar 1 mês de vida, Bia pegou um resfriadinho e grudada com a irmã, acabou transmitindo a ela. Aos poucos Gabi foi perdendo o "apetite" e passou metade de um dia sem mamar. Fiquei preocupada, pois pela experiência que tive sabia que não mamar podia indicar algo errado. Enfim, passei a madrugada tentando dar de mamar pra Gabi e ela desfalecendo nos meus braços. Aquela foi a pior noite da minha vida! Tinha pedido ao Abreu para me levar no hospital naquela noite, mas desistimos pois pensamos que ela poderia estar bastante sonolenta pra não querer mamar. Mas depois da terrível noite, naquela manhã levantei decidida a ir no consultório da pediatra e espera lá mesmo a hora pra ser atendida, esse estado não era normal para uma bebê com 1 mês de vida.

Gabriela teve 3 paradas respiratórias no consultório da pediatra fazendo-a reanimá-la la mesmo. Corremos para o hospital mais perto e por não ter infra-estrutura adequada fomos transferidos de ambulância para o Hospital Infantil Sabará. Alguém tem idéia do que é pegar a Radial Leste, em pleno horário de pico, numa ambulância? Impossível andar. Nervosismo total! Ainda por cima a médica era boliviana e me pedia para descrever o ocorrido num portunhol medonho. Eu nervosa e totalmente perdida!

Já no hospital Gabriela foi direto para a UTI e precisou ser entubada e ficar na incubadora. Os médicos fizeram dezenas de perguntas sobre a rotina em casa, seu estado de saúde e medicamentos que estava ministrando. Possivelmente desconfiaram de intoxicação, situação comum nas UTIs neonatais, segundo enfermeiras na época. O mais intrigante é que na tarde anterior eu havia levado a Gabi para consulta com uma otorrino devido seu ronco, e a médica, mesmo examinando-a, não detectou que ela já apresentava dificuldades em respirar e fraqueza.

Valorizo muito a opinião e diagnóstico dos médicos, mas aprendi que eles não são senhores da verdade e muitas vezes não entendem de gente, é fundamental dar voz ao sexto sentido materno.

Passado uma semana na UTI tivemos o diagnóstico de uma bronquiolite, um tipo de resfriado muito comum em bebês. Porém, passado o tempo previsível de recuperação ela não melhorava e diversos exames começaram a ser feitos. Eu passava todas as tardes e parte da noite ao lado de seu bercinho, sentada numa poltrona quase desconfortável, conversando com ela e orando, pedindo a Deus por um milagre. Voltava para casa para dormir, tirar leite e claro, ficar um pouco com a Beatriz. Coração de mãe dividido ainda tinha que ser forte para superar isso e produzir o alimento que tanto era importante para sobrevivência e resistência da pequena Gabriela. Por sorte meu leite não secou, provavelmente por tanto ingerir o “chá da mamãe” da Weleda e por continuar a tirar o leite todos os dias.

Com 1 mês e 10 dias de vida Gabi foi para a sala de cirurgia, seu caso era mais delicado do que imaginávamos. O cirurgião Dr. Uenis Tannuri nos disse que era raro o tipo de anomalia, pois tratava-se de uma “veia” anômala que estrangulava a traquéia e o esôfago, razão pela qual a Gabi deixou de respirar ao contrair a bronquiolite. Bendita seja, pois se não fosse por ela, talvez Gabi pudesse vir a falecer no berço e diagnosticada de morte súbita.

A cirurgia durou por intermináveis 3 horas. Sua recuperação foi lenta, recebendo sangue, antibióticos, entubada, com dreno e cheia de cabos que mal me permitiam chegar perto dela. Mãos enfaixadas e amarradas, pés com oxímetro, tubos e cabos em todo o corpo, não sobrava espaço para tocar seu corpinho pequeno, frágil e quente. Fiquei 20 dias sem poder segurar meu bebê no colo, estava com ela todos os dias, mas não podia senti-la de fato. No 21º dia, após alguns cabos serem desligados, consegui que uma enfermeira a colocasse no meu colo e ali fiquei uma tarde inteira, imóvel, sem poder levantar para nada. Nem queria, o tempo parou naquela tarde e assim se repetiram inúmeras vezes. Aos poucos os cabos, tubos de alimentação e oxigênio foram desligados e Gabi começou a mamar, primeiro na mamadeira e depois no peito. Não podia ficar cansada e seus batimentos e saturação eram monitorados 24horas.


Após 40 dias de internação tivemos sua liberação para trazê-la para casa, mas precisaria continuar com a monitoração e acompanhamento médicos constantes – Home Care. Quase uma extensão da UTI foi montada em nossa casa, enfermeira 24horas, visitam médicas semanais, ambiente limpo, quarto sem enfeites e sem visitas. Nós de casa e avós, para segurá-la nos braços, tínhamos que lavar as mãos ou usar máscara, quando algum resfriadinho aparecesse. Aos poucos, com seu crescimento, fomos liberados de tantos cuidados e conseguimos autonomia para cuidar dela sozinhos. Em seu primeiro ano de vida, Gabi me fez aprender com as enfermeiras na UTI e em casa, a mexer nos equipamentos e balão de oxigênio, fazer os registros necessários para acompanhamento do pediatra e até como fazer fisioterapia respiratória (ela precisava aprender a tossir e expelir a secreção). Tínhamos como apoio pediatra e pneumologista (acompanhamento), fonoaudióloga (aprender a engolir e mastigar comida), psicóloga (sanar seu pavor de pessoas vestidas de branco, nem o açougueiro e seu avental Gabi gostava) e fisioterapeuta(aprender a tossir), Ufa! Cada coisa passamos…

Após 9 meses de Home Care e ainda algumas intercorrências ocasionada por broncopneumonia, foi diagnosticada com refluxo por conta da hérnia de hiato o que levou Gabi a uma segunda cirurgia. E justamente esta ocorreu no dia do seu primeiro aniversário. Entre internação, cirurgia e recuperação foram mais 20 dias.




Após internações, cirurgias e tantos cuidados médicos Gabi foi crescendo normalmente, sem seqüelas, apesar das cicatrizes, tendo o acompanhamento somente da pneumologista. De um jeito particular, as vezes lento e as vezes não, começou a andar, falar, escrever, desenhar muito e fazer artes como nunca. Hoje, disso tudo que passamos, Gabi só tem as cicatrizes, que ela nem sabe como conseguiu. Um dia me perguntou: Mãe, o que são esses risquinhos que tenho na barriga? E esse corte grande? Vou ficar com ele quando crescer? Então expliquei e mostrei fotos, mas ela, graças a Deus, nada lembra! Melhor assim.

Gabriela nos fez pais mais fortes, mais sábios, mais pacientes. Aprendemos de maneira dolorida a respeitar o tempo de Deus e seus desígnios para as nossas vidas. Nossa fé nos deu consolo, força e coragem para não desistir em momentos que não tínhamos chão. Lembro de uma vez que um médico da UTI, num tom sarcástico, me disse: “ Mãe, você ganhou na loteria. O que sua filha tem é raríssimo, em 33 anos de medicina só vi 30 casos assim, e como o dela menos ainda”. Eu respondi que dessa loteria eu jamais comprei bilhete. Mas ele insistia em dizer que ficaríamos na UTI por tempo indeterminado, como víamos muitas crianças que lá estavam por 15 anos, por exemplo.


Agora, completando 8 anos de existência, olhamos para trás não com saudades, mas com júbilo por ver o nosso crescimento como seres humanos e por tantas alegrias que Gabriela trouxe a nossa família. De fato, tenho filhos são presentes do Senhor e nós passamos exatamente por aquilo que Deus assim determinou.

Por muito tempo procurei não pensar em tudo que passei, as noites mal dormidas e os choros de dor e sofrimento das crianças (incluindo o meu bebê) na UTI. As angústias, sofrimentos, limitações que tínhamos com pais inexperientes. Esse texto serve como um desabafo de sentimentos aprisionados e também como um registro histórico, para a própria protagonista.

De hoje em diante, olhemos somente para o seu futuro, que ele seja glorioso, com muita saúde e paz. Sim, porque vitoriosa você já é Gabi, por tudo o que passou, sofreu, sentiu, calada, sem saber falar, quando a única forma de nos comunicar era pelo seu olhar no leito do hospital. Muitas ainda serão as vezes que vamos rir juntas!

"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre tua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de Sua mão."
(antiga bênção irlandesa)

Feliz Aniversário!

7 comentários:

  1. Puxa Edi.... Não sabia da história da Gabi...

    Imagino o quanto foi sofrido para você e para o Abreu... e até mesmo para a Bia, que era tão pequenina na época!

    A Clara nasceu e ficou 10 dias na UTI... quase morri do coração... Mas o que eu passei não chega nem perto do que vcs passaram!


    Sem dúvida o Senhor segurou vocês em Seu colo em todo essa fase e hoje pela Sua graça vocês comemoram o oitavo aniversário dessa menina linda de viver!!!

    Parabéns à Gabi e à vocês!!!

    Super beijo!
    Jacke

    ResponderExcluir
  2. Nossa Leia!

    Estou simplesmente me acabando de chorar... Acho que só quem é mãe pode imaginar - e nem assim - o que vcs passaram com ela.

    Hj,se a Duda espeirra, eu ja fico doida, imagina...

    Gracas a Deus, hj ela é uma flor linda,saudavel, que traz imensas alegrias pra vcs!!!

    Um feliz aniver pra vcs!!

    bjs no coracao!

    ResponderExcluir
  3. Chorei!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Gabi vc já é uma vencedora!! Parabéns mesmo!!!! como digo, muitas vezes não sabemos viver ainda!!! 'É preciso saber viver" Titãs

    ResponderExcluir
  4. Amor,
    Não tenho como não lembrar e chorar deste momento, passa um filme na minha cabeça desde o momento em que sai atrás da ambulância até a volta para casa da ultima internação.
    O que passamos não volta, ficam as memórias e as lições. Na época questionava o porque e só agora a vida vai dando sentido a tudo.
    Deus vai mostrando seus designos.
    Te amo e amo muito nossas princesas

    ResponderExcluir
  5. Imagino como foi difícil passar por tanta dor e preocupação! Você é uma GRANDE MULHER, pois ao invés de questionar, orava constantemente pedindo a Deus para ajudá-la.
    Quando confiamos em Deus e colocamos nossas aflições sobre o altar da fé, estamos garantindo a proteção divina.
    “Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas” (Provérbios 3:5-6).
    A Gabi é uma menina linda, carinhosa, inteligente, comunicativa e bastante esperta. Ela é uma guerreira vitoriosa desde pequena! Parabéns pela família linda que vocês construíram!
    Diga a ela que a Prô está mandando um abração e beijinhos com sabor de chocolate!!!

    ResponderExcluir
  6. Ediii queridaaaa!!!
    Não tem como não ficar emocionada lendo suas palavras!
    Gabi tão pequena e com uma história tão linda, superação total!
    Quem conhece vcs, sabe o quão linda é a família de vocês e depois de tudo isso vocês merecem o final feliz...
    Parabéns não só pela Gabi mas pelo blog q está muito legal e pela família maravilhosa!
    Estou com muitas saudades de vc e das 3 sobrinhas mais lindas q tenho rs
    Beijos!
    Ale

    ResponderExcluir
  7. Ediléia, sempre te admirei como pessoa, mãe, profissional e agora, como GUERREIRA.
    Me emocionei demais ao ler o relato e tenho certeza que Deus prepara todas as coisas e nada acontece por acaso. A fé de vcs foi o que diminuiu tanta dor.
    Hoje temos esta menina linda, podendo compartilhar de seus aprendizados e descobertas.
    Parabéns a toda família, sempre estarei torcendo por vcs.
    Beijos enormes !!!

    ResponderExcluir