16 de mar de 2011

As flores do meu jardim – Retornando ao trabalho e as pistas

Nos últimos 5 meses, desde que a Alice nasceu, tive a oportunidade de sentar no meu jardim diversas vezes e observar as roseiras e hortências podadas crescerem e desabrocharem. Nesse tempo ficava pensando e imaginando em como seria o retorno ao trabalho, com data marcada, mas não tinha a menor idéia de quando retornaria as pistas, quando voltaria a sentir a endorfina percorrer o meu corpo, novamente.

Alegrei-me e entristeci-me diversas vezes por não conseguir prever ou planejar este retorno a corrida. Esperava pelo momento em que meu corpo daria os sinais que estaria pronto para o esforço e mesmo tendo a liberação médica, sentia um certo desconforto no local das 3 cesáreas. Pacientemente esperei, preocupada com a amamentação e em dar a atenção necessária e exclusiva as minhas filhas nesse período.

Tudo a seu tempo e no tempo certo meu retorno aconteceu.
Ganhei a inscrição da prova do meu esposo, Alexandre Abreu, no dia 8 de março, dias das mulheres. O que para mim, estudante de gênero e simpatizante do movimento feminista, foi um significativo gesto do Homem que tenho ao meu lado. Foi também um grito de liberdade da “mulher” que estava aprisionada pela “mãe” representada nestes últimos meses. São tantos os papéis que nós mulheres temos que desempenhar ao longo de toda uma vida... e muitas vezes eles se sobrepõe (filha, namorada, noiva, esposa, amante, mãe, avó, tia,...).


Acho que meu marido reuniu muito bem o espírito do evento no texto que escreveu brilhantemente em seu blog Enquanto Isso e faço minhas as suas palavras de relato da prova. Foi a primeira vez que participo de uma prova organizada pela Corpore, e gostei muito da distribuição do espaço, medalha, já quanto a camiseta, um tanto exagerada nas marcas, faltou destaque a identidade da prova em si, dando espaço demais ao patrocinador máster da prova, enfim... Quanto ao local, a USP, tenho um carinho especial pelo local, foi onde fiz minha primeira prova de 5k, efetivamente, na Fila Night Run. Não só por isso, mas é onde eu costumava freqüentar seus prédios e bibliotecas para pesquisa de faculdade, ou mesmo para passear e sonhar com uma vaga na FUVEST.


O melhor de correr, além de todos os benefícios para o corpo e mente que tod@s sabemos são os amigos que fazemos, e temos feito muitos. Alexandre e eu conhecemos muita gente legal, bem humorada, simpática e companheira desde que entramos para o hall dos #twittersrun e com muito orgulho fiz meus 5k vestindo essa camiseta. Homens e mulheres guerreiros, que vencem suas batalhas diárias em busca de endorfina e qualidade de vida, sempre muito festeiros e isso nós podemos ver nas fotos abaixo. Grande foi a alegria em conhecer a guerreira Jacke que, assim como eu, é mãe de 3 filhos (Clara, Pedro e Lucas) e apaixonada por corridas. Desta vez com direito a bolo na comemoração da #runningdiva @YaraAchoa, além da presença da minha filha Bia, da linda Clarinha (filha da incrível @Jackegense) e da presença do mascote e fuleiro Jeremias (estimado cão do @wandernardino e @Adri_Gazola).

querida Jacke


Clara e Bia


O fuleiro Jeremias e seu dono Wander

Meus primeiros 5k depois do nascimento da Alice foi com um debut, uma passagem para a maioridade das corridas, uma nova fase nessa fase nova da minha vida. E em meio a tantas novidades tive também o meu retorno ao trabalho no dia seguinte a prova.

Depois de 5 meses afastada, voltar a jornada de trabalho não foi nada fácil. Foi mais ou mesmo como começar num emprego novo, mas na mesma empresa, com os mesmos problemas, dificuldades e limitações de cada um. Confesso que senti um pouco de frustração, pois com tantas novidades que aconteceram desde a chegada da Alice, voltar ao mesmo ponto de antes é como se não tivesse evoluído. Por outro lado, essa “estagnação profissional aparente” nos da à sensação de continuidade, de que é possível retornar ao mercado de trabalho. Muitas empresas não vêem com bons olhos mulheres-profissionais, mães de mais de um filho. Elas não percebem que esta pode ser uma profissional muito mais empenhada e compromissada com suas funções pela responsabilidade que possui em cuidar e prover para suas crias.

O recomeçar na mesma empresa também gera expectativas em ambas as partes. Do lado da empresa, ela espera que você venha render tanto igual ou mais do que antes de sair de licença. Em sua mentalidade comercial, ela pode imaginar que esses 4 meses de licença mais 1 mês de férias foram de puro descanso. Ledo engano! É possível e necessário se “desligar” das atribuições do trabalho para cuidar de novas atribuições: decifrar e entender as necessidades do pequeno ser gerado a fim de prover suas necessidades básicas. E quem disse que se consegue “descansar” com um bebezinho em casa?

Pois bem, esse desligamento impede que retomemos o trabalho no ritmo anterior. Depois de tanto tempo atenta as horas de mamada, consumo de fraldas, cuidados com banho, papinhas, vacinas, etc, etc, etc retomar as atribuições profissionais nem sempre é automático. Confesso que me senti meio “lerda” no primeiro dia, esquecendo de nomes de pessoas, ramais..., mas no segundo dia, percebi que gradativamente minha memória profissional esta voltando.

Em casa, Alice e suas irmãs se comportaram como mocinhas! Fiquei com um medinho de que a pequena fosse chorar ao longo do dia, tanto que evitei ligar em casa pra “falar” com ela ao telefone, para não provocar a saudades. Mas saudades de quem, minhas? Acho que fui eu quem mais sofreu com essa separação necessária. Sentia um nó na garganta toda vez que alguém me perguntava dela ao me cumprimentar e foram diversas as vezes que não consegui segurar as lágrimas. Não foram só as saudades, a falta de sentir seu cheirinho e calor do corpinho frágil e o sorriso doce, foi também o medo dela chorar de saudades que mais me deixaram insegura. Saber que ela ficou bem o dia com os avós e irmãs foi um alívio!

E assim se vão os dias, me dividindo entre os diversos papeis que tenho que desempenhar ao longo do dia. Continuo a passar todos os dias pelos bancos do meu jardim, mas agora sem poder parar pra apreciar as rosas por pelo menos 5 min. Elas continuam a crescer, embelezar e nos embalar com seu perfume. Disso eu tomei uma lição, não deixar de olhar para minhas 3 princesas todos os dias, notar e registrar seu crescimento e vibrar com suas conquistas. Não deixar de ver sem ver.

6 comentários:

  1. Léia.. que lindo post!
    Me emocionei muito... além de toda identificação que tive com essa leitura super agradável.
    Voltar as pistas depois de tanto tempo parada é algo simplesmente fantástico... "descrudamos de nós" esse lado nosso lado mãe e esposa... para sermos um pouco "nós mesmas"...
    Fiquei muito feliz em estar presente na sua volta! Pois sei bem o que isso representou à vc.
    Em relação ao seu retorno ao trabalho sei bem como se sente também..
    Embora eu tenha ficado apenas 1 mês trabalhando depois que o Lucas nasceu a ausência é muito grande...
    Aos poucos "nós" vamos se acostumando, pois eles são muito mais adaptáveis que nós..rs

    Bom retorno!! E com a benção de Deus tudo entra nos eixos ;-)

    Super beijo!

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  2. Post bacana, hein!!!

    Seja bem vinda as corridas!

    Legal te conhecer!

    Beijão!

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  3. A cada post você me surpreende e me emociona.
    Sempre acreditei que poderia escrever bem.
    Te amo e quero ler mais
    @abreutax
    http://abreutax.blogspot.com/

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  4. Sensacional!
    Muito bom! Feliz retorno!!
    BEijos
    Colucci
    @antoniocolucci

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  5. Ediléia, bonito o seu testemunho - no meu olhar, e vc sabe disso- um testemunho sobre as desigualdades de gênero, sobre a dificuldade de enfrentar aquilo que a sociedade representa como tão "natural", no caso, sobre a idéia de que apenas as mulheres são responsáveis pelo cuidado dos/as filhos/as. Muito possivelmente o empregador não pararia para pensar nos 4 meses de licença, se eles fossem atribuídos igualmente a pais e mães- talvez esse tempo de licença ganhasse uma cara de "natural", como hoje parece "natural" que o custo da maternidade seja atribuído apenas às mulheres, na casa mas também fora de casa, no trabalho...
    Bom, mas como não vou desenvolver uma tese aqui, fica apenas os parabéns pelo seu belo testemunho. Vinha pensando outro dia que vc deu uma sumida (vc pegou meu telefone e ia me ligar), mas agora entendo que talvez entre o plano e o real, isso não foi possível. Continuo à disposição para o que estiver ao meu alcance.
    Bjo prá toda a família
    Naira

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